Crash Tester

March 8, 2007

Infeliz Dia das Mulheres

Filed under: Inutilidades

” Tell me all your thoughts on God?
‘Cause I would really like to meet her
And ask her why we’re who we are. “

Dishwalla - Counting Blue Cars

Hoje é dia das mulheres mas eu sinceramente não tenho a menor vontade de comemorar. Enquanto a maioria das mulheres do mundo achar que tem obrigação de parecer a Angelina Jolie e que isso é que é importante eu acho que o dia das mulheres tem que ser é um dia para pregar a libertação dos padrões, dar chacoalhões e tentar abrir os olhos de gente que sofre lavagem cerebral desde a hora que nasce, lavagem reforçada à cada nova edição da Caras, com cada escolha da próxima gostosa do Big Brother. Acho absurda a paranóia feminina por beleza porque não reflete a real beleza (menção clara à Dove) e sim uma beleza que só reflete a habilidade de fotógrafos e do pessoal da computação gráfica.

Me alegrarei e comemorarei quando houverem mais mulheres fazendo pós graduação do que cirurgia plástica. Só que num país onde boa parte da juventude se forma no ensino médio é analfabeta funcional, fica difícil. E não adianta espernear e colocar a culpa no governo e nas más condições sociais: a verdade é que a maior parte das garotas tem sim acesso à educação básica, o governo tem dado bolsas universitárias para praticamente qualquer um que peça e pareça pobre, em algumas localidades não só há bibliotecas disponíveis, como também há telecentros e esse mundão de informações que é a internet. E uma maioria esmagadora vai à estes lugares para usar o orkut e msn, o que é bem estranho já que alguns não sabem escrever.

Fico extremamente decepcionada pensando no que as mulheres passaram em décadas passadas para conseguirem liberdade. O O começo da biografia da Hilary Clinton, Vivendo a História, conta como na década de 60 nos EUA Harvard não precisava de boas advogadas. E não precisa ir tão longe: em casa minha vó conta que na década de 70 ela era discriminada por sair para trabalhar. Elas e muitas outras mulheres deram a cara à tapa, literal e figurativamente, para deixar um legado de liberdade feminina para a minha geração.

Sobrou para mim ser de uma geração de mulheres pode estudar o que quiser (e não estuda), trabalhar com o que quiser (e não sai de casa), fazer sexo com quem quiser e nem isso faz direito, porque acaba tendo filho sem poder, sobrando para a avó, que é daquela geração de 60 que lutou para poder legar este direito para as filhas. Estão sendo justas?

Me nego a levantar bandeira de moral e bons costumes mas a vulgarização da mulher está chegando à um nível absurdo. Lembrando que eu acho absolutamente normais que chocariam algumas pessoas. Só que eu acho completamente inapropriado, degradante, vulgar e desprezível a televisão de domingo, com falsas celebridades que atingiram este posto ficando nuas nos lugares certos, que agora evoluiram à ficar semi-nuas no Faustão e no comercial de cerveja e estão felizes, pois essa é a meta de uma vida e essas mulheres que são o modelo para as “mulheres normais”, não eu, que nem faço a unha (talvez porque eu gasto 14 horas do meu dia com trabalho e faculdade).

Resumindo: podem mandar as trufas e as rosas mas dispenso os parabéns. Prefiro que o dia das mulheres aja como um tapa na cara que nos relembre do nosso valor e alertar que ele está indo para o saco por livre, feminina e espontânea vontade, depois de tanta luta.

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1 Comment »

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  1. Excelente post. Este é um daqueles artigos que mereciam virar corrente ou pps (sem ser pejorativo). Foi o texto mais sóbrio sobre as mulheres que eu li nos últimos tempos. Sem contar que eu nunca vi ninguém gostar (ou pelo menos conhecer) o Dishwalla. hehehe

    Comment by Fernando — May 9, 2007 @ 11:53 am

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