Crash Tester

October 10, 2006

SP, 10 de outubro de 2006 , centro (cracolândia)

Filed under: Inutilidades

Quando mais uma terça-feira de primavera começa, eu já sei tudo. Sei que o fato de ser primavera, em São Paulo, não faz lá muita diferença; sei que em suma, tudo que eu poderia dizer sobre trabalho e faculdade se resume a ter uma vida sossegada e realizada em breve (já que por hora é só realizada, e não ser sossegada faz parte disso). Sei que tenho um monte de coisas à fazer daqui a 2 horas, 6 meses e 5 anos e vou acertando o terreno para cada uma delas do jeito que dá.

Mas as vezes quando olho para fora as nuvens de chuva, que geralmente não me remetem à muito mais longe do que o trânsito que aumentará quando a tempestade cair de vez, me mandam para vilazinhas, onde faculade, carreira, carro do ano e esquiar no Chile não importam. Eu tenho esse desejo esquisito de querer ir para uma tribo indigena só para perguntar o que eles, que moram tão longe e vivem tão diferente, querem da vida. O que eles esperam, o que é fracasso e o que é sucesso…

Só que nesta terça-feira primaveril, andando por caminhos mal pensados pelo centro de são paulo, na parte decadente, suja e com cheiro de fezes, apropriamente apelidada de cracolândia, eu vi que não preciso ir tão longe. Eu, na hora do almoço, entre o banco e o restaurante, pensando no cliente, no chefe, nos livros tecnicos passo na frente de um bar e vejo 3 mulheres de uns 25 anos conversando em um bar. O que ELAS fazem da vida? O que elas querem? Porque elas estão ali e não atrás de mesas, ao lado de telefones, em frente de máquinas? Mais para frente, andando, vejo outra, que deveria ter até menso de 25, com a cara inchada, roxa, pontos na sobrancelha… porrada na certa. De onde veio, porque e como ainda assim, acredite, ela estava rindo?
Na frente do albergue, vejo as pessoas que já à tarde aguardavam um lugar para dormir. E elas então? Porque estão ali? Como alguém perde até o teto?

E percebi que não preciso ir tão longe para encontrar incognitas sobre esperança, sucesso e fracasso. Que mesmo nos ares capitalista de uma cidade grande o capitalismo não se apresenta de um jeito só, embora eu creio que ele seja o mesmo, devorador de presas que engorda e é abatido pelos que tem força… Meu naco dele é dos menores, mas tem gente que é a presa, só isso, nada mais. E a gente, que consegue não ser engolido, por transferencia de matéria acaba absorvendo essas pessoas sem nem ver e então deixa elas morrerem… e elas continuam andando por ai.

E daí? E daí não sei.. só pensei até aqui. Na verdade, pensei em pegar uma mini-dv e perguntar isso para cada uma das pessoas e compilar num documentário. Porque isso é mais estranho que indios lá na p.q.p. vivendo de um jeito diferente ao nosso. Isso são pessoas a metros de distância vivendo completamente alheias de muitas das coisas que eu considero coletivas…

as vezes sair da nossa casca de ovo é tão interessante quanto estranh0.

3 Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://crashtester.blogsome.com/2006/10/10/sp-10-de-outubro-de-2006-centro-cracolandia/trackback/

  1. Cada pessoa tem uma história. E ela é divina, forjada da essência do onírico em carne.

    Queria ter o dom de contar cada história de cada ser humano. Por mais banal, piegas e mundana que fosse.

    E realmente é bom ampliar o diâmetro do umbigo das percepções.

    Bom dia 11 de outubro para ti.

    Comment by zander catta preta — October 11, 2006 @ 10:14 am

  2. cara.. isso me fez lembrar meu tempo de igreja la no interior. a gente tinha um negocio chamado tropa de resgate em q o pessoal saia de manhazinha pra tentar dar uma forca pros moradores de rua. pra mim, aquilo era uma grande desculpa pra poder ouvir as historias deles. e como eles gostam de contar historias. coisas de dar medo as vezes…
    otimo texto!

    Comment by leandro — October 11, 2006 @ 1:37 pm

  3. Muito bacana esse teu post.
    Muitas vezes eu já fiquei encafifada com esses referenciais de felicidade e sucesso alheios. Ainda fico, pra ser honesta.
    Na época em que estudava, super preocupada com uma carreira de sucesso, me pegava observando mulheres pobres, muitas com a mesma idade que eu, nos pontos de ônibus, visivelmente felizes ou em paz.
    Sempre foi inevitável, nessas situações, pensar muito sobre que felicidade é essa que é tão simples e acessível para uns e tão custosa para outros. Quase sempre eu me convenci que elas eram mais felizes que eu, e senti inveja delas. Justamente porque eu, sem prazer algum, trabalhava o dia inteiro pra depois ir espremida e cansada para aula à noite para quem sabe um dia, não sei quando, ser bem sucedida profissionalmente e então ser feliz. Elas, talvez, não sei, já tivessem descobrido o que só com muito custo e terapia tenho descoberto agora: a felicidade não deve estar distante, num destino que demora a chegar, mas em cada coisa que me faz, um dia depois do outro, mais próxima dele.

    Comment by Luciana — October 11, 2006 @ 2:06 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Chris M